Vim adiando esse momento há um bom tempo, mas ele enfim chegou. Finalmente decidi me aventurar pelas páginas do último romance de Jane Austen que eu ainda não havia lido: A Abadia de Northanger.

A Abadia de Northanger acompanha a trajetória de Catherine Morland, sua família e amigos, quando de sua visita ao balneário de Bath, na Inglaterra, local sempre frequentado por Austen e sua própria família. Em sua estadia, Catherine passa seus dias visitando seus mais novos amigos e frequentando bailes na cidade e acaba por se envolver com dois jovens da cidade, John Thorpe e Henry Tillney que a envolve com seu conhecimento de literatura e história. O pai de Henry, general Tillney, a convida para visitar uma de suas propriedades, a Abadia de Northanger. Catherine que na história está lendo o romance gótico, “Os Mistérios de Udolpho”, de Ann Radcliffe, fica fascinada com a perspectiva de ingressar em um ambiente antigo, fantástico e sombrio.
“Uma mulher, especialmente se ela tem o infortúnio de saber tudo, deve ocultar seus conhecimentos o melhor que puder”.
São essas e outras recomendações que fazem de A Abadia de Northanger um livro único dentre todos os outros escritos por Jane Austen. Diferentemente dos outros títulos da autora, a presença da narradora (em 3ª pessoa, portanto, onisciente) é bem forte. Ela chega, inclusive, a conversar e a aconselhar o leitor ao longo da narrativa.
Quem se baseia apenas na ordem de publicação dos livros de Austen, poderia pensar que esta é uma nova forma de escrita, desenvolvida pela autora no final de sua vida. Mas é aí que está o engano! Apesar de ter sido lançado em 1818, um ano após sua morte, o livro foi o primeiro a ser escrito, lá pelo ano de 1797. Porém, sua publicação enfrentou diversos entraves, contra os quais Jane lutou durante toda a sua vida. Seria então, um movimento contrário? Talvez um dos aspectos que fez com que a obra demorasse tanto para ser lançada fosse justamente sua narrativa, bem à frente de seu tempo. Ou não. Esse é um mistério que ainda gera muitas discussões.
Aliás, mistério é justamente outro fator bastante presente na história! Porém, destoando novamente de seus outros livros, o suspense não fica apenas em torno dos tormentos e infortúnios da mocinha acerca dos sentimentos daqueles que a cercam. Apesar de, é claro, isso também fazer parte do enredo, desta vez temos uma faceta ironicamente gótica da autora inglesa. As alusões a esse tipo de literatura são bem evidentes, principalmente às obras de Ann Radcliffe e seu livro Os Mistérios de Udolpho, e as críticas, maiores ainda! Afinal, às vezes acabamos por ver elementos sombrios onde não há nada aterrorizante.
Ora, que espécie de heroína iria se deixar levar por contos de terror? Bem, uma de personalidade aventureira e bastante curiosa… Talvez. Pobre, Catherine! Acho curioso como Jane utiliza a paixão da protagonista por romances para criticar aqueles que se dizem “superiores” a esse tipo de leitura. Estão vendo, “falsos intelectuais”?
Enfim, ouso até a dizer que A Abadia de Northanger acabou desbancando Persuasão do segundo lugar entre os meus livros favoritos de Jane Austen (Orgulho e Preconceito nunca perderá seu espaço no lugar mais alto do pódio). Repleto de ironia, emoção e romance, só poderia ser uma excelente leitura!
“Deixo que seja determinado, a quem possa se interessar, se a tendência desta obra, em seu todo, é a de recomendar a tirania paterna ou a de compensar a desobediência filial”.
Comentários técnicos
Não poderia deixar de fazer alguns comentários técnicos em relação à edição que eu li. Como não encontrei nenhuma versão totalmente em português (e também não quis me arriscar a ler em inglês), acabei optando pela edição bilíngue. E isso me permitiu a encontrar muitas falhas na tradução.
Além de palavras “comidas” em alguns casos e em duplicação de palavras em outros, não pude deixar de notar a falta de pontuação e de abertura ou fechamento de aspas em outros. Parece que faltou atenção tanto do tradutor quanto dos revisores, o que, certamente não é algo que conta pontos positivos! Sem falar nas escorregadas feias na tradução propriamente dita, como no caso de “daughter-in-law” (nora) ter virado, sem mais nem menos, “cunhada”. Oi? Fiquei perdida na leitura e só entendi o contexto porque tinha a versão em inglês bem ao lado. Ops!!!
Ficha técnica
Título: A Abadia de Northanger (Northanger Abbey)
Autor: Jane Austen
Editora: Landmark
Páginas: 288
Avaliação: 5/5 estrelas