Entre Páginas – Se eu fechar os olhos agora
Já tinha visto esse livro na livraria. Pegado, analisado, folheado… Mas acabei devolvendo à estante. Porém, em uma outra ocasião, resolvi dar uma “segunda olhada” na obra de Edney Silvestre e não tive como não levar Se eu fechar os olhos agora para casa!
Numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense, em abril de 1961, dois meninos de 12 anos encontram o corpo de uma linda mulher, que foi morta e mutilada às margens de um lago onde vão fazer gazeta. Eles não aceitam a explicação oficial do crime, segundo a qual o culpado seria o marido, o dentista da cidadezinha, motivado por ciúme. Começam uma investigação ajudados por um velho que mora no asilo da cidade, um ex-preso político da ditadura Vargas. Para os meninos, um terrível caminho de amadurecimento e chegada à vida adulta.
“Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos”.
Era uma tarde de sol como outra qualquer. Os amigos Paulo e Eduardo, dois garotos de 12 anos, estão deitados à beira de seu lago preferido, discutindo a principal notícia daquela manhã de 1961: a ida ao espaço do russo Yuri Gagarin e a sua afirmação de que “a Terra é azul”.
Porém, a sua inocência infantil é quebrada quando os dois se deparam com o cadáver de uma mulher assassinada bem no meio do seu paraíso pessoal. A partir de então, a dupla se vê envolvida em um esquema que pode ser bem mais complicado do que parece e, com a ajuda de um personagem um tanto quanto inusitado, passa a investigar o crime.
Com alternância de narrativas em primeira e terceira pessoa, o livro de Edney Silvestre vai muito além de um simples romance policial. É quase como uma memória de um país traumatizado pela ditadura, enterrada ali no fundo da mente e que, de repente, ressurge com força total. Inclusive, em alguns momentos essas memórias se confundem e nem mesmo o narrador tem certeza dos fatos.
Aliás, no começo fica até difícil definir quem de fato é o narrador… Em alguns momentos parece que é Paulo, em outros, Eduardo – mais um mistério que vai sendo revelado aos poucos e que possui um desfecho surpreendente! Outro fator também um tanto indefinido é o tempo. Na sua maioria, a narrativa se passa ali, nos anos 60, na periferia do Rio de Janeiro. Porém, tanto o começo quanto o final se dão em um tempo futuro, livre dos olhares pueris e deslumbrados da infância.
Os personagens, em alguns momentos até um pouco caricatos, nos conquistam lentamente. Eduardo é um garoto centrado, membro de uma família de classe média bem estruturada e seguidor da moral vigente. Contudo, talvez justamente por ter uma consciência maior do cenário que o cerca, o menino por vezes apresenta características de um personagem mais velho, amaciado pelas angústias do mundo. Já Paulo é o típico moleque de classe baixa. Negro e filho de um português branco (e tirano) o menino sofre constantes maus-tratos do pai e do irmão. Ele encontra em Eduardo um companheiro fiel e que lhe mostra que ele pode ter algo mais do que a vida medíocre na qual vivem os seus familiares.
Mas, por incrível que pareça, o personagem com o qual eu mais simpatizei foi o velho Ubiratan. Preso e torturado durante a ditadura Vargas, o senhorzinho de atitudes suspeitas chega para contrabalancear a visão ingênua dos garotos – e cumprir missões que exigem uma idade mais “avançada”. O mais divertido é a forma como ele vai parar no meio das investigações…!
Com diálogos rápidos e uma narrativa que constrói, pouco a pouco, aquela tensão que antecede o “gran finale”, Se eu fechar os olhos agora nos leva por uma viagem pelas raízes do nosso país, pelos entremeios das relações políticas e pela construção de uma nova identidade.
“Aparências enganam. Mais cedo ou mais tarde vocês irão aprender. Nada neste país é o que parece. E esta cidade é um microcosmo do Brasil”.
Ficha Técnica:
Título: Se eu fechar os olhos agora
Autor: Edney Silvestre
Editora: Galera Record
Páginas: 301
Avaliação: 4/5 estrelas











