Pipoca Salgada – Livre e as tendências machistas da academia #Oscar2015

Por , 21 de fevereiro de 2015 12:28

Ao assistir Livre, estrelado por Reese Witherspoon você vai acompanhar a saga de Cheryl, que assim como mostrado no filme, também fez a jornada na Costa oeste americana, mas ele representa mais do que a sua própria história e trás uma tendência horrorosa de Hollywood.

WILD_International-One-Sheet-Poster

 

Como minhas expectativas para os filmes indicados foram se reduzindo à medida que fui os vendo. Ao chegar finalmente em Livre (como não estava concorrendo dei prioridade para os outros), me peguei mais pensando em avaliar a performance de Resse (que concorre ao Oscar de Melhor Atriz). Como a história soava interessante, mesmo com o meu mau humor com os indicados desse ano, resolvi arriscar sem muitas expectativas.

Porém, terminei o filme com uma grande desconfiança na cabeça: Se o personagem da Reese fosse um homem se a jornada que estávamos vendo naquele momento tivesse sido feita por um John ou um Tim, muito certamente o filme seria indicado para a categoria Melhor Filme e não somente melhor atriz e coadjuvante.

Parece papo de feminista? Parece, mas não é.

É só a realidade.

No filme, Cheryl decide fazer a rota do pacífico por razões diversas e desconexas entre si, que só vamos ligando a medida que ela vai andado todos os quilômetros que tem na sua frente.

Aos poucos, vamos montando o retrato dessa jovem mulher que por não ter uma vida ativa como aventureiro, não sabemos nem o porquê ela resolveu fazer exatamente esse desafio, mas tudo vai se abrindo até o final.

O roteiro é do escritor Nick Hornby, e dá para navegar facilmente por ele, com frases importantes soltadas em momento apropriados. Resse está muito bem no papel, e apesar de aparecer pouco a indicação de Laura Dern como atriz coadjuvante é perfeita.

A direção é de Jean-Marc Vallée que já dirigiu filmes como o Clube de Compras Dallas e A Jovem Rainha Victoria, então vamos dizer que ele tem um jeito para contar histórias com um teor dramático.

É possível sentir a presença da mãe ao longo do filme inteiro, e junto com Cheryl vamos lembrando que não somos criaturas colocadas no mundo sozinhas. Somos criaturas que temos a influência de pessoas importantes para o nosso crescimento como nesse caso a mãe.

As questões que levam Cheryl a fazer isso e até os demônios que a perseguem tem um que características femininas , características que estão ligadas a mãe que tem um papel importante para colocar ela na linha e até mesmo motivar a sua jornada durante a sua caminhada.

Características e demônios que eu como mulher consigo identificar e sentir muito bem. O filme consegue fazer isso, você se importar com o drama e com o que acontece com ela. Talvez um homem não consiga entender porque uma mulher andaria tantos quilômetros porque entre outras coisas, dormiu com vários homens, mas é uma jornada e uma parcela de culpa que qualquer mulher consegue identificar o peso, ela acreditando ou não nessa questão.

la-wild-laura-dern-on-feeling-vulnerable-as-re-001Assim como mostrar como uma mulher viajando sozinha pode ser perigoso e aterrorizador. Estamos vulneráveis não porque somos fracas, mas porque outros (leia-se homens mau intencionados) acreditam que podem fazer o que quer e estão com a razão, afinal uma mulher viajando sozinha pelo deserto quer ser violentada. Certo?

E é nessa realidade que cada passo é acompanhado pelo telespectador.

Pode não soar como a melhor história já feita, mas a jornada de Cheryl não é tão diferente da de Stephen Hawking (De a A teoria de tudo), não é tão diferente da de Alan Turing (de O Jogo da Imitação) ela não chega nem a ser diferente da de Riggan ( de Birdman) ou até mesmo da de Chris ( Em Snipper americano).

Há diferenças em roteiros, direção e a forma como as histórias são contadas, porém não que efetivamente justificam a escolha de um pelo o outro, ou exclua o feito de Livre, e por isso, coloco como um dos filmes injustiçados do ano.

Aí vão falar, mas Alan Turing foi o ‘pai do computador’ a sua vida teve mais relevância do que de uma mulher que andou uma trilha, mas o filme de Turing não é melhor que o a de Cheryl. Ponto.

Não merecia ganhar a maior estatueta da noite? Não. Mas merecia a menção e a falta dela mostra claramente como o sexismo ainda está presente em Hollywood.

De certa forma, é o jeito da indústria do cinema dizer: não importa a sua luta, mas a de um homem sempre vai ser mais importante.

Em um ano em que nenhum ator negro foi indicado, que vemos a homogêneo entre os outros indicados, seria bom poder ver a história de Cheryl brigando com eles. Ou até mesmo a de Ida, que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O mundo não está preparado para as lutas das mulheres, mas isso não significa que vamos parar.

 

Ficha Técnica:

Título: Livre

Título original: Wild

Gênero: Drama

Direção: Jean-Marc Vallée

Ano de Produção: 2014

Distribuição: Fox Filmes

Tempo: 1h56min

Nota: 8 de 10

Deixe uma resposta