Entre Páginas – Número Zero

Por , 10 de março de 2016 9:00

Tem alguns escritores que sempre aparecem nas nossas listas pessoais de “autores que quero conhecer”, mas que ali permanecem por um bom tempo sem que de fato nos aventuremos por suas páginas.

O Umberto Eco era um desses casos para mim.

Sempre ouvi falar de suas obrar icônicas, como O Nome da Rosa (do qual assisti a adaptação cinematográfica na época do colégio) e O Pêndulo de Foucault. Mas foi só quando o autor publicou o livro Número Zero, no começo, que finalmente resolvi romper essa barreira e finalmente ler alguma coisa escrita por ele.

Um fator determinante na minha escolha foi o tema abordado no livro: o jornalismo marrom – minha profissão que, apesar de não exercida em sua essência, sempre mexe comigo.

 

Número Zero

 

Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar, prestar serviços duvidosos a seu editor. Um redator paranoico, vagando por uma Milão alucinada (ou alucinado numa Milão normal), reconstitui cinquenta anos de história sobhre um cenário diabólico. E, nas sombras, a Gladio, a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de atentados e cortinas de fumaça – um conjunto de fatos inexplicáveis que parecem inventados, até um documentário da BBC mostrar que são verídicos, ou que pelo menos estão sendo confessados por seus autores. Um perfeito manual do mau jornalismo que o leitor percorre sem saber se foi inventado ou simplesmente gravado ao vivo. Uma história que se passa em 1992, na qual se prefiguram tantos mistérios e tantas loucuras dos vinte anos seguintes, enquanto os dois personagens acreditam que o pesadelo terminou. Uma aventura amarga e grotesca que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra até os dias de hoje.

 

Já imaginou se existisse um jornal que pudesse antecipar – e até mesmo prever – o desenrolar de casos importantes? Essa é a proposta de O Amanhã, um jornal patrocinado por um magnata que deseja a todo custo adentrar nas esferas mais altas da sociedade.

Essa é a promessa apresentada a Collona, um escritor, revisor e jornalista que é contratado pelo diretor de redação do jornal com o intuito de escrever a história da criação do periódico como ghost writer. Na redação ele se passa como um revisou ou subeditor, mas na realidade ele sabe que é bem possível que o projeto de O Amanhã nunca saia de fato do papel – ele serviria apenas como uma moeda de troca, um elemento de chantagem por parte do dono do jornal para conseguir influência e manipular os figurões de Milão.

Como parte da farsa, o editor Simei monta uma redação e contrata um time de jornalistas para escrever a edição número zero do jornal (o “piloto” da publicação). Como O Amanhã se propõe a destrinchar fatos e especulações escandalosas como se elas já tivessem acontecido “ontem”, o primeiro exemplar é escrito como se tivesse sido publicado meses – ou até anos – atrás. E é a partir daí que se desenvolve a narrativa.

Não sei exatamente qual seria a impressão de um leitor que não tem nenhuma relação com o jornalismo em si, mas como tendo minha formação nesta área, considerei logo de cara esta obra de Umberto Eco como um texto divertidíssimo sobre o avesso de tudo aquilo que aprendemos na faculdade. Esqueça os ideais da imprensa, preocupados com a veracidade e com a averiguação dos fatos: o que temos aqui é um veículo à lá Cidadão Kane, repleto de escândalos e especulações, teorias da conspiração e criações absurdas.

Um exemplo disso é a matéria tão defendida e destrinchada por Bragadoccio, o repórter mais conspiratório, acerca dos últimos dias de Benedito Mussolini. O jornalista mistura realidade e ficção em uma teia tão inacreditável que até poderia ser real – ou será que é? N’O Amanhã a ética que vale é a dos interesses… E qualquer relação com veículos existentes é mera (????) coincidência.

Além de cutucar a sensível ferida da ética jornalística, Eco também recria um cenário que tem como pano de fundo a fatídica Guerra Fria – o que favorece o ar de suspense, desconfianças e conspirações. Tudo – e nada – é o que parece.

Essa combinação de elementos fez com que eu conhecesse uma narrativa afiada, irônica e refrescante. Para mim, os únicos pontos nos quais ela deixou realmente a desejar foram: a quantidade infinita de detalhes acerca da matéria de Bragadoccio, que se estende por páginas sem fim e que se arrastam por um capitulo enorme; e o final abrupto e semi-aberto.

O saldo da leitura foi bastante positivo e acredito que tenha sido uma boa porta de entrada para a obra do autor – da qual, confesso, tinha um certo medo por todo ar canônico dado por alguns críticos. Só lamento ter conhecido Umberto Eco um pouquinho antes dele partir… Mas me contento ao saber que ainda tenho muitos de seus livros a ler.

 

Ficha técnica:

Livro: Número Zero (Numero Zero)

Autor: Umberto Eco

Editora: Record

Páginas: 208

Classificação: 3/5 estrelas

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