Entre Páginas – Meio Sol Amarelo

Por , 28 de março de 2016 11:50

Chimamanda entrega uma história crua e muito perto de uma realidade esquecida da Nigéria.

829772_VitrineFilha de uma família rica e importante da Nigéria, Olanna rejeita participar do jogo do poder que seu pai lhe reservara em Lagos.

Parte, então, para Nsukka, a fim de lecionar na universidade local e viver perto do amante, o revolucionário nacionalista Odenigbo. Sua irmã Kainene de certo modo encampa seu destino. Com seu jeito altivo e pragmático, ela circula pela alta roda flertando com militares e fechando contratos milionários.

Gêmeas não idênticas, elas representam os dois lados de uma nação dividida, mas presa a indissolúveis laços germanos – condição que explode na sangrenta guerra que se segue à tentativa de secessão e criação do estado independente de Biafra.

Contado por meio de três pontos de vista – além do de Olanna, a narrativa concentra-se nas perspectivas do namorado de Kainene, o jornalista britânico Richard Churchill, e de Ugwu, um garoto que trabalha como criado de Odenigbo -, Meio sol amarelo enfeixa várias pontas do conflito que matou milhares de pessoas, em virtude da guerra, da fome e da doença.

O romance é mais do que um relato de fatos impressionantes: é o retrato vivo do caos vislumbrado através do drama de pessoas forçadas a tomar decisões definitivas sobre amor e responsabilidade, passado e presente, nação e família, lealdade e traição.

Esse é o segundo livro da Chimamanda que li ( o primeiro foi Sejamos Todos Feministas) e o Meio Sol Amarelo furou Americanah na minha lista e não é um livro fácil.

Não porque Adichie usa palavras difíceis ou porque o seu conteúdo é confuso, é difícil porque retrata um período muito difícil de um país, visto pela parcela da população que mais sofre: os mais pobres.

Nas mais de 500 páginas acompanhamos a história de Olanna e Kaianne duas irmãs gêmeas não identificas que passam mais de 300 páginas mostrando como são diferentes uma da outra, mas que nas 100 páginas finais mostram que são mais parecidas do que elas próprias querem acreditar ou imaginar.

Seus caminhos são traçados no final, quando ambas precisam aprender a sobreviver e lutar pelos seus ideais, quando tudo que lhes é mais conhecido fica perdido na guerra imposta dentro do seu país.

Apesar disso, o livro tem outro personagem importante Ugwu, um jovem pobre que trabalha na casa de Odegino, parceiro de Olanna e que devido à proximidade, vai estreitando as relações com os seus patrões enquanto vamos vendo uma parte da historia pela sua visão.

Chimamanda não torna mais fácil a vida do leitor, inserindo nomes, costumes e várias faces da cultura da Biafra (que depois se tornaria a Nigéria) demonstrando a todo o momento para o leitor que você está realmente lendo sobre uma cultura muito diferente da sua.

Poderia ser visto como um erro por quem lê, mas tenho a impressão que essa foi exatamente a vontade da autora, deixar o leitor incomodado e fora da sua zona de conforto o livro inteiro, não só para mostrar uma história mais próxima da realidade, mas para motivar exatamente essa visão de um mundo diferente em várias formas.

Porém, vivendo em um mundo onde já vimos de tudo, não somos surpreendidos pelos relatos de mortes macabras, pobreza extrema e maldade. Parece ser mais natural e possível do que outros relatos do livro. =/

É um livro para se ler devagar, com calma, porque a sua narrativa pode cansar, mas ao mesmo tempo é um daqueles tipos de livros que você só percebe a sua grandiosidade quando o finalmente fecha.

Tanto que quando acabei de ler dei 4 estrelas, e um dia depois, quando a história havia se assentado dentro de mim mudei para cinco, porque ela era tão boa assim.

Só quando toda a história do livro é absorvida que você entende o que realmente leu, o quanto aquilo te tocou e começa a entender porque Chimamanda é tão citada em várias listas. Ela tem um grande talento que sacado com uma vivência e conhecimento diferente de tantos por aí, pode nos entregar histórias como essa, para nos fazer pensar e evoluir.

 

Ficha Técnica:

Livro: Meio Sol Amarelo

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Cia das Letras

Páginas: 502

Nota: 5 /5 estrelas

3 comentários para “Entre Páginas – Meio Sol Amarelo”

  1. Stéfhanie disse:

    Terminei de ler a poucos dias então é bem legal saber as impressões de outra pessoa também.
    Para mim foi extremamente importante o fato da autora inserir costumes e acontecimentos históricos de Biafra, assim como você, acho que isso foi totalmente proposital e fez com que eu vivesse tudo aquilo e não apenas lesse.
    O que mais me chamou atenção foi à ficção ambientada em fatos verídicos, e imaginar que Chimamanda estava escrevendo ali a história de seu país, de seus ancestrais… Sua origem.
    Também dei cinco estrelas.
    Grande beijo!

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    Fanny Ladeira disse:

    Admito que conhecia muito pouco sobre a cultura Biafra e que esse livro foi um aprendizado gigantesco. Adorei como ela usou isso a seu favor para criar um livro único e ao mesmo tempo mostrar isso para o mundo.
    Você lê aquilo tudo e quase espera que seja de mentira porque ninguém merece passar por tanto sofrimento.
    O próximo da minha lista é Americanah. Já leu?
    Beijos,
    Fanny

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  2. Nanda disse:

    Sei que é um post antigo, mas…
    Eu gostei bastante do livro só que poderia ser menos grosso. Eu aprendi muito com a história de Biafra. O Americanah é menos pesado, mas atinge em portos certeiros.

    Tenho hibisco roxo que eu ainda não li.

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