Entre Páginas – The Haunting of Hill House

Por , 13 de junho de 2016 9:00

Devo confessar que a minha fonte número um de indicações literárias é o Youtube. Recentemente me vi assistindo um vídeo atrás do outro da vlogueira gringa Alycia Mansfield, no canal Exlibris (que, por sua vez, foi indicada pela Ange, do Beyond the Pages).

Em um dos vídeos, a Alysia comentou sobre a fixação dela pela autora Shirley Jackson, conhecida por inserir em seus livros elementos arrepiantes, sobrenaturais e por lidar com questões como realidade e sanidade.

Fiquei bastante curiosa para ler alguma de suas obras e resolvi apostar em The Haunting of Hill House, um livro arrepiante e surpreendente!

 

The Haunting of Hill HouseEleanor Vance sempre foi solitária – tímida, vulnerável, e amargamente ressentida pelos 11 anos que perdeu cuidando de sua mãe doente. Ela sempre pressentiu que um dia algo grande iria acontecer em sua vida e um dia isso acontece. Elanor recebe um convite inusitado do Dr. John Montague, um homem fascinado por “manifestações sobrenaturais”. Ele organiza uma vigília em busca de espíritos, convidando para tal propósito pessoas que têm algum histórico com eventos “do outro mundo”.

Um incidente paranormal ocorrido na infância de Elanor a qualifica para participar do estudo bizarro arranjado por Montague – juntamente com a determinada Theodora, sua assistente, e Luke, um aristocrata. Eles se encontram na Hill House – uma propriedade renomada da Nova Inglaterra, e palco da pesquisa.

 

“Journeys end in lovers meeting.”

Para contextualizar um pouquinho a temática explorada por Shirley Jackson em suas obras, vale recorrer a alguns elementos de sua biografia. Na introdução da edição que li, escrita pela PhD em literatura Laura Miller, ela chama atenção para o fato de que a autora sofreu por diversas vezes de crises neuróticas e psicóticas e que isso influenciou diretamente em seu trabalho – uma vez em que a autora tem o costume de trabalhar com a ideia da realidade vs. loucura em alguns de seus personagens.

Este é o caso de Elanor. Apesar de a história ser narrada em terceira pessoa, é através de seu ponto de vista que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos – e não é um ponto de vista confiável. Elanor é uma pessoa insegura, marcada pelos anos em que passou cuidando de uma mãe doente, mas não menos severa, que subjugava a filha em todos os momentos. Após a morte de sua progenitora, a personagem vai morar em um quartinho na casa da irmã e do cunhado, com quem tem uma relação no mínimo bastante conturbada.

Por esta razão, quando ela recebe o convite inusitado para participar de uma pesquisa paranormal dirigida pelo Dr. Montague na afastada Hill House (ou “Casa da Colina”), ela vê uma oportunidade para se libertar e finalmente viver uma vida própria.

Ainda no caminho para a propriedade, acompanhamos Elanor desenhando para si a personalidade que gostaria de ter e “assimilando” elementos para uma realidade idealizada – como sua xícara preferida, a fachada da casa que gostaria de ter… Enfim, a vida que gostaria de possuir.

E por falar na casa… Ela é algo à parte! Imagine todas as mansões mal assombradas e assustadoras que você já viu no cinema ou encontrou nas páginas de um livro de terror. Ela consegue ser mais perturbadora! Além de possuir aquela aura de mansão antiga, com torres e telhados pontudos, ela tem uma arquitetura bem diferente, o que por si só já ajuda a atordoar os visitantes. Nada está onde deveria estar – seus cômodos são dispostos de forma a confundir os habitantes e a gerar um sentimento de estranhamento.

“It was a house without kindness, never meant to be lived in, not a fit place for people or for love or for hope.”

Isso nos leva a refletir sobre até que ponto os fenômenos estranhos que acontecem ali se devem de fato a algum elemento sobrenatural ou se são um reflexo desse desequilíbrio arquitetônico.

O relacionamento entre os personagens também beira o doentio – principalmente a ligação entre Theodora e Elanor. Ao mesmo tempo em que são relações superficiais, enquanto se dão entre as paredes da Casa parecem “tudo o que existe no mundo”. É como se eles vivessem ali isolados de todas as referências externas, em um ecossistema particular.

“How can these others hear the noise when it is coming from inside my head?”

Se pudesse resumir o livro em poucas palavras, diria que é uma história de terror psicológico, com personagens pouco confiáveis, que se encontram à beira da insanidade. Tudo isso embrulhado em uma ambientação deliciosamente assustadora. O resultado disso é uma obra arrepiante sim, mas mais pelo fato de nos fazer pensar na questão de até que ponto a loucura está dentro ou fora de nós.

“Whatever walked there, walked alone.”

 

Ficha Técnica:

Título: The Hauting of Hill House

Autor: Shirley Jackson

Editora: Penguin

Páginas: 182

Avaliação: 4/5 estrelas

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