Projeto Dickens #6 – David Copperfield

Por , 4 de julho de 2016 9:00

 

“Assim como muitos pais afetuosos, tenho no fundo do meu coração um filho predileto. E seu nome é David Copperfield”.

 

Toda vez que me sento para escrever mais um post relacionado ao #ProjetoDickens, sinto um misto de ansiedade, empolgação e terror.

Ansiedade e empolgação porque acabei de ler as últimas páginas de mais um livro incrível de um dos meus autores favoritos de todos os tempos… Mas terror porque ao mesmo tempo milhares de pensamentos se atropelam na minha mente – mais ou menos no espírito: “eu não sou uma perita em Dickens. Eu não sou uma especialista em literatura vitoriana. Eu vou falar bobagem. Ou eu não vou falar nada e o post vai ficar superficial, e…”.

Pois bem. É nessa hora que tenho que abafar essa vozinha interior e escrever um post que passa longe de uma análise técnica, estilística, mas que foca no que para mim, como leitora, é o mais importante: nos sentimentos que aquela obra despertou em mim e nos elementos que permanecerão comigo pelos próximos anos.

Só depois dessa decisão que consegui sentar para falar sobre um dos livros que já entrou facilmente para os preferidos da vida: David Copperfield, do Charles Dickens.

 

David Copperfield

 

Um dos pilares da literatura ocidental moderna, Charles Dickens é até hoje fonte de inspiração para muitos escritores. Seu gênio foi admirado por Tolstói, Marx, Joyce, Kafka, Henry James, Nabokov, Orwell, Cortázar, entre muitos outros.

Semi-autobiográfico, David Copperfield foi publicado em forma de folhetim entre 1849 e 1850. O autor afirma, no prefácio ao livro, que, entre os inúmeros romances que publicou, este era seu “filho predileto”.

 

“Se serei o herói da minha própria vida, ou se essa posição será ocupada por alguma outra pessoa, é o que estas páginas devem mostrar”.

Apesar de ser um dos livros mais famosos de Charles Dickens, confesso que não sabia quase nada sobre sua trama ao iniciar a leitura. Porém, a impressão que tive, logo ao começar o capítulo de nome sugestivo “Nasço”, foi a de estar revisitando um velho amigo, daqueles que te acolhe com uma xícara de chá e um abraço e que sempre tem um comentário espirituoso na ponta da língua.

Essa é a sensação que a narrativa de Dickens desperta em mim: a de ser envolvida por uma narrativa deliciosa, repleta de frases brilhantemente construídas, permeada por personagens incríveis e multifacetados, que dão cores e nuances para um enredo interessantíssimo (percebam que esse post será repleto de hipérboles… Sorry not sorry).

David Copperfield não é uma obra construída em torno de um acontecimento específico, que culmina em um clímax seguido da resolução de um problema ou questão. O seu principal atrativo encontra-se justamente no fato de seu enredo acompanhar a vida de um jovem em seus altos e baixos, com seus dramas pessoais e desafios, e a forma com a qual sua trajetória irá se cruzar com a de outros tantos personagens dos mais diversos tipos e personalidades – e como tudo isso terá um forte impacto na formação do seu caráter.

Mais do que tudo, vejo neste livro um romance de formação, que nos apresenta o ser humano sob diversos prismas – e como cada um deles construirá a sua própria história (seja buscando ser bom ou procurando conquistar êxito em suas ganâncias a qualquer custo).

David Copperfield é o primeiro livro que Dickens escreveu em primeira pessoa (o próximo seria o incrível Grandes Esperanças), no qual depositou uma forte carga pessoal e até mesmo autobiográfica. Quem já teve um contato breve com a biografia do autor consegue identificar alguns pontos em comum na trajetória do personagem com a de seu criador, como o drama do trabalho infantil e a consagração como escritor – sem que esta o afastasse de seus entes mais queridos. Ambos também iniciaram sua carreira na Corte, experiência que Dickens viria a retratar por diversas vezes em seus romances (principalmente no que diz respeito aos tipos caricatos e inescrupulosos que trabalham ali) e sofreram desilusões amorosas na juventude.

Além disso, uma das características mais impressionantes de Dickens (e que ele “empresta” a Copperfield como narrador) é a capacidade de observação dos detalhes, das sutilezas. Ele emprega a seus personagens nuances que a princípio parecem sem importância, mas que traduzem perfeitamente um elemento de sua personalidade, como por exemplo a fala empoada e as expressões caprichadas de Micawber – que é o oposto da sua situação financeira; ou a obsessão que Betsey Trotwood tem por espantar os burros de seu quintal, mas que não reflete na forma com a qual ela sempre acolhe àqueles que precisam da sua ajuda; ou então na cicatriz de Rosa Dartle, que se acentua ainda mais e a deixa feia quando ela faz algum comentário cruel ou debochado.

E por falar nos personagens… Ah! Que delícia que elenco! Copperfield é um jovem um tanto ingênuo, de bom coração que, apesar de ter um início de vida um tanto duro e conturbado, não deixa isso afetar a sua bondade e perseverança.

“ – Nunca seja mesquinho – disse minha tia –, nunca falso, nunca cruel. Evite esses três vícios, Trot, e minha esperança estará sempre com você”.

A minha preferida, Betsey Trotwood, faz uma introdução e tanto na história na ocasião do nascimento de David e, a princípio, parece ser uma personagem dura e fria. Porém, com o avançar da narrativa ela se prova dona de um afeto sem tamanho e conquista a todos os leitores com o seu carisma e simpatia.

Outro personagem notável é, sem dúvida, Wilkins Micawber. Sempre às voltas com as suas “dificuldades pecuniárias”, ele cruza com o narrador em diversos momentos de sua juventude e desenvolve por ele uma grande admiração e amizade – mesmo que “atrapalhada”. Apesar das complicações financeiras, ele nunca perde o bom humor e a vontade de ajudar aqueles que lhe estenderam a mão. E, de quebra, é responsável pelos melhores discursos e dissertações…

“Falamos da tirania das palavras, mas gostamos de tiranizá-las também; gostamos de ter um grande suprimento supérfluo de palavras à espera em grandes ocasiões; achamos que parece importante, que soa bem”.

A bem da verdade é que eu poderia ficar até amanhã discorrendo sobre os demais coadjuvantes, como o amigo fiel Thomas Traddles, a inabalável Agnes, a doce e ingênua Dora, os terríveis Murdstone e a sofrida Em’ly – sem falar na querida babá Peggoty e a família de seu irmão, que se tornam como uma segunda família para David. A habilidade de Dickens para construir uma gama de personagens rica e tridimensional é incrível e agrega mais profundidade a seu texto. Como diria T. S. Elliot (parafraseado pelo organizador de Retratos Londrinos, Marcello Rollemberg): “Com uma simples frase, [Dickens] podia fazer de um personagem um ser real, de carne e osso”. E isso só se comprova em David Copperfield.

Me despedi da leitura de suas páginas com um calorzinho agradável no peito e memórias muito afetuosas deste livro, que tenho certeza que revisitarei em outros momentos da vida. Esta é uma leitura que recomendo sem restrições para qualquer leitor que seja apaixonado por boas – e belas – histórias!

“Quero dizer apenas que, tudo o que tentei na vida, tentei com todo o coração fazer bem; que tudo a que me dediquei, me dediquei completamente”.

 

Ficha Técnica:

Título: David Copperfield

Autor: Charles Dickens

Editora: Cosac Naify

Páginas: 1312 páginas

Avaliação: 5/5 estrelas

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