Entre Páginas – Não me Abandone Jamais

Por , 28 de julho de 2016 9:00

Amanhã, falaremos sobre a belíssima adaptação que esse livro ganhou nos cinemas. Mas hoje, o foco está no livro do Kazuo Ishiguro.

nao-me-abandoneKathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de “cuidadora”. Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os “alunos” de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição.

Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino – doar seus órgãos até “concluir”.

Esse é um daqueles pousos casos, em que o filme é muito bem adaptado.

Mas ainda assim o o livro, com todas as suas 344 páginas, consegue passar mais realismo e emoção.

Nos afundamos nas emoções da personagem principal Kathy e passamos a conhecer melhor a personalidade dos seus dois grandes amigos de Hailsham, Tommy e Ruth, para então podermos ter um visão maior da historia.

O filme é bom, mas não mostra isso.

Ishiguro, não se preocupa em montar uma explicação científica para os clones. Faz o que qualquer autor sensato faz quando se vê perto de assunto que não conhece, não mexe muito.

Então, não espere uma explicação mirabolante para o efeito, mas ele entra naquilo que deveria, e revela a alma de Kathy completamente. Ela é uma vítima da situação, assim como todos os estudantes de Hailsham, e por causa disso sempre fala “não os culpo, por nada” talvez por estar dentro de toda a confusão que esses jovens enfrentaram, uma mais madura Kathy, não guarda rancor de ninguém, nem de quem ela deveria.

Ela também não tem nenhuma revolta contra o sistema, não é um livro aonde eles tentam se rebelar. Não há planos para fugas, eles simplesmente seguem o plano que foi determinado para a vida deles.

Não é por causa disso, que a vida não resolver pregar peças e mexer com toda a situação deles, os fazendo passar pelos mesmos sentimentos que qualquer pessoa passaria.

Depois que os três amigos, (Kathy, Tommy e Ruth) deixam Hailsham para trás, eles são lançados para o mundo ‘normal’ e tentam manter as amizades mesmo com todos os elementos externos levando para o outro lado.

Não é a história de um triângulo amoroso, o autor não se entregou a isso, mas é a trama de três pessoas com as suas características e que em diferentes momentos da vida tem as suas razões para os seus atos. Podemos dizer que Ruth, é um pouco egoísta, porém devo dizer que peguei a mania de Kathy e direi que ela ‘não tem culpa de nada’.

Em um certo momento, o tão esperado romance de Kathy e Tommy finalmente acerta o seu passo. Será que o plano montado para a vida deles, considerou a opção de dois estudantes se apaixonarem ou eles terão que seguir como programado pelas suas funções?

Nós não paramos para pensar, mas do que adianta ter tudo, se nos falta a liberdade sobre as nossas escolhas, sobre o nosso próprio corpo?

Você se pega pensando na situações deles, e se você fosse um clone criado somente para repor órgãos para humanos? Como se sentiria? Se alguém falasse repetidas vezes que você não possui alma, será que você chegaria a acreditar?

E se houvesse clones, seres que fosse capazes de prolongar as nossas vidas, e nos fizessem livrar de doenças, como o câncer? Seria maravilhoso, mas a que preço?

Você seria capaz de ignorar e não pensar no custo de se viver mais? São ótimas questões, já que a ciência vai evoluindo a cada momento.

Eu amo quando um livro nos faz mergulhar, sonhar, imaginar e questionar diversos pontos que nem sequer pensamos no nosso dia-a-dia.

Uma obra-prima moderna.

Ficha Técnica:

Livro: Não me abandone jamais

Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 344 páginas

Nota: 5/5 estrelas

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