Entre Páginas – A Cor Púrpura

Por , 17 de outubro de 2016 12:05

Alguns livros nos fazem sonhar. Outras são um chute no estômago. E todos eles são importantes, como A Cor Púrpura de Alice Walker.

a-cor-purpuraA comovente história da adolescente negra começa em uma pequena cidade na Geórgia (EUA) em 1909. Celie, uma jovem com apenas 14 anos é violentada pelo pai e se torna mãe de duas crianças. Além de perder a capacidade de engravidar, Celie imediatamente é separada dos filhos e da única pessoa no mundo que a ama, sua irmã.

Ela é doada por seu pai a “Sinhô”, que a trata mais como escrava do que como esposa. Grande parte da brutalidade com que Sinhô a trata provêm por alimentar uma forte paixão por Docí Avery, uma sensual cantora de blues, que foi sua amante e tem grande influência na vida de Celie.

Celie fica muito solitária e compartilha sua tristeza em cartas (a única forma de manter a sanidade em um mundo onde poucos a ouvem), primeiramente com Deus e depois com a irmã Nettie, que se tornou missionária na África. Conforme a trama se desenvolve, Celie revela seu espírito brilhante, ganhando consciência do seu valor e das possibilidades que o mundo lhe oferece.

Acredito que isso já aconteceu com vocês. Até um certo tempo, você nunca leu um livro que retratasse um assunto especifico, e de repente, como se abrisse uma porteira, parece que você só lê sobre isso.

Ou como no meu caso, que todos os que leu sobre isso, realmente lhe causaram um incomodo ou uma transformação.
Aconteceu comigo e com livros que retratam o racismo americano. Em dois anos, li Preciosa de SapphireBlack Boy de Richard Wright, Between The World and Me de Ta-Nehisi Coates (Leia nosso review AQUI), O Sol é para todos de Harper Lee (Leia o nosso review AQUI), e por último, A Cor púrpura.

Cada um tem a sua história e a forma de contar o que acontece. A história de Celie se assemelha com a de Preciosa, mas com protagonistas diferentes e momentos distintos da história, ambas merecem serem lidas.

A Cor Púrpura não é um livro grande, mas é difícil. Primeiro porque vamos nos surpreendendo como Celie relata abusos de uma forma rotineira e sem pretensão de chocar.

Trabalhando em primeira pessoa, ela não fala para sentir pena, apenas relata o que acontece, como se acontecesse com todos.

E os abusos e agressões vem de tantas pessoas, de tantas formas que em alguns momentos você se pergunta como (e porquê) ela ainda está de pé. É muito para uma pessoa ter que aguentar, mas ela resiste e com o seu jeito simples e de uma forma nem tão suave vai conquistando um pouco de espaço para ter a sua dignidade de volta.

Eu não ligo de ler um livro forte, sobrenatural, mas é muito complicado ler um livro que relata uma situação que você sabe que muitos passaram e passam. Por mais que aquela história seja uma ficção, sabemos que alguém está sofrendo exatamente daquele jeito, ou até pior.

É aí que vem o soco no estômago.

Utilizamos os livros para escapar da realidade, mas em alguns momentos precisamos fazer com que eles sejam ferramentas que nos façam acordar para o mundo. Não porque queremos, mas porque precisamos.

Ficha Técnica:

Livro: A Cor Púrpura

Autora: Alice Walker

Editora: José Olympio

Páginas: 336

Nota: 4/5 estrelas

Deixe uma resposta