Blá Blá Blá – Quem tem medo dos clássicos?

Por , 21 de outubro de 2016 9:00

classics

 

Já mencionei diversas vezes por aqui que uma das minhas fontes número um de indicações literárias é o Youtube. Assino diversos canais do universo “booktube”, focados nos mais diversos gêneros, públicos e idades.

O mais divertido em seguir a vários canais, na minha opinião, é identificar as “patotas” de vlogueiros, que leem em conjunto, comentam e interagem entre si. E uma das minhas “patotas” favoritas do booktube internacional é, sem dúvida, a formada por Ange (Beyond the Pages), Alysia (Exlibris), Katie (Books and Things), Kate (Kate Howe) e Yamini (TheSkepticalReader).

O perfil dessas meninas é voltado mais para clássicos e literatura contemporânea – gêneros que estão, aos poucos, ganhando um espacinho especial no meu coração (vide os desafios de leitura dos quais tenho participado, como o #projetopravida e o projeto Yale). Para vocês terem uma ideia, elas criaram um projeto especial para este mês chamado #Victober, onde fizeram a proposição de lerem bastante literatura vitoriana ao longo do mês. Puro amor!

Bem, tudo isso é para dizer que esses dias estava assistindo um vídeo da Katie, do Books and Things, no qual ela avalia a relação das pessoas com os romances clássicos e como essa classificação faz com que as pessoas se sintam na obrigação de ter que entender todas as entrelinhas daquela obra ou de fazer resenhas mais aprofundadas e com menos “paixão” do que as de livros mais contemporâneos.

Fiquei pensando nesse assunto e como ele se aplica à minha própria relação com os clássicos – e com os outros gêneros literários – e resolvi compartilhar um pouquinho dessa reflexão com vocês, para ver ser mais pessoas também se sentem assim.

 

Por incrível que pareça, nunca fui uma aluna modelo das aulas de literatura e nem devorava completamente todos os livros de leitura obrigatória para a escola. Na verdade, não me orgulho de dizer que não cheguei a ler nem metade das obras requisitadas no vestibular por inteiro e por muitas vezes cheguei a apelar para resumos da internet para conseguir passar em uma prova. Mas muito mudou de lá pra cá…

Meu amor pelos clássicos começou na faculdade, por conta própria. Me lembro de entrar na biblioteca, olhar para as dezenas de livros dedicados ao jornalismo e fazer uma promessa silenciosa de que leria todos aqueles volumes durante os quatro anos de curso. Pois bem. Eu li alguns, claro, mas aos poucos aquela comichãozinha foi migrando de estante e encontrou o seu lugar lá nos últimos corredores, dedicados às literaturas inglesa e americana.

Pouco a pouco os livros de teoria jornalística e grandes reportagens foram dividindo espaço na minha bolsa com Jane Austen, Charles Dickens e até mesmo Emily Brontë (passando, claro, por Truman Capote e Sidney Sheldon por motivos de razões). Foi ali que me apaixonei por Mr. Darcy, me encantei com a bela narrativa de Um conto de duas cidades e bradei meu ódio por Heathcliff. E esse foi apenas o começo de uma relação duradoura com os cânones.

Tomei tanto gosto por eles, que iniciei projetos, renovei minha estante e me propus a conhecer mais autores e a ler bibliografias completas (porque nenhum desafio é um desafio quando for simples demais). Fiz isso por descobrir uma nova paixão e não para poder sair por aí me classificando como “a intelectual que lê clássicos” – longe disso!

Porém, apesar de me animar, rir e me emocionar com suas páginas, é verdade que ainda sinto um certo “peso” ao iniciar a leitura de um dito clássico. Ao contrário do que acontece com outras obras, ao não “gostar” de um deles, sempre fica aquela dúvida, bem no finzinho de: “será que não gostei porque não entendi tudo o que ele queria dizer?”.

classics300E, se você tem um blog ou um canal literário, acaba pensando duas vezes ao sentar para escrever sobre aquele livro – afinal, fica o conflito: aquele é um livro que você leu, gostou e quer indicar para outras pessoas. Mas é só isso. Você não é um expert, um professor e nem tem a pretensão de escrever um tratado sobre aquele livro, mas ao mesmo tempo tem a sensação de que se sua opinião for simples demais não estará à altura do leitor que buscar saber mais sobre aquela obra.

Mas, o que por muitas vezes nos esquecemos, é que o que hoje para nós é considerado um clássico, era a literatura corriqueira produzida naquela época. A Katie mesmo diz que ouviu uma vez que “se Charles Dickens escrevesse nos dias de hoje, ele provavelmente seria autor de novelas de TV” – e, se você levar em conta suas tramas repletas de personagens marcantes e cômicos e o formato folhetinesco pelo qual publicava, percebe que é verdade. Logo, “clássico” não é um gênero, é um “status”, uma vez que temos clássicos romances, clássicos suspenses e clássicos de ficção científica.

Portanto, será que precisamos dar mesmo todo esse peso para essa leitura? Acredito que não. Antes de mais nada eles são livros, que merecem ser lidos, amados, odiados, indicados… E sim, estudados e analisados, mas não apenas. É refrescante poder se sentar com um amigo e discutir sobre “como Tess era ingênua” e como “Edward Ferrars é um mocinho molenga demais para Elanor”!

Sim, eu amo os clássicos, porque amo bons livros! Gosto de todos? Não! Mas adoro descobrir qual será um dos próximos favoritos!

2 comentários para “Blá Blá Blá – Quem tem medo dos clássicos?”

  1. Ilmara disse:

    Oi, adorei o post, a tempo frequento o blog e gostaria de fazer uma sugestão, sinto falta aqui discutir mais sobre os nossos clássicos, como não falar de Machado, José de Alencar, Aluísio Azevedo, Lima Barreto, e tantos outros grandes autores brasileiros, acredito eu que vocês estão perdendo uma grande oportunidade que é mergulhar nos contos de Machado , por exemplo, é de perder o fôlego.. sinto falta das poesias também , gostaria muito de ver por aqui indicações. Uma dica Manuel Bandeira (meu preferido) e um poeta contemporâneo Antonio Cícero e o poema “Guardar”. Bju e obrigado!

    [Responder]

    Sabrina Inserra disse:

    Oi Ilmara, tudo bem?
    Muito obrigada pelas sugestões.
    Gostamos muito de autores que você citou, como Machado e Alencar, mas foram leituras que fizemos mais antes de criarmos o blog.
    Fica aqui o desafio então para a nossa equipe: revisitar os nossos autores clássicos e resenhá-los por aqui.
    Beijos

    [Responder]

Deixe uma resposta