Entre páginas – O Papagaio de Flaubert

Por , 12 de dezembro de 2016 11:55

Terceiro livro do ano de Julian Barnes e eu quero ainda muito mais.

o_papagaio_de_flaubert_1361025278bGeoffrey Braithwaite, médico inglês aposentado, admirador de Gustave Flaubert, descobre num museu da Normandia um papagaio empalhado, que o escritor francês teria tomado emprestado para escrever a novela Um coração singelo. Em outro museu, outro papagaio empalhado também passa por ter sido o que serviu ao escritor do século XIX.

Qual deles seria o autêntico? O que é realidade e o que é fantasia no trabalho de um autor? Partindo de um dado aparentemente prosaico, o escritor britânico Julian Barnes desenvolve uma prosa deliciosa em que todos os gêneros são transgredidos – romance, biografia, crítica literária – e em que o resultado surpreende a cada passo. Raras vezes inteligência e versatilidade andaram tão juntas. Ou foram reconhecidas com tanta unanimidade.

Eu sei que comecei a ler Julian Barnes pelo livro certo. Altos voos e quedas livres (Leia AQUI o nosso review) é aquele tipo de livro que você se apaixona de cara. Foi de longe, o melhor livro que li esse ano.

Depois dessa primeira leitura engrandecedora, agora começa o desbravamento do restante da obra do autor e apesar dele mostrar a genialidade na sua primeira obra publicada, agora descubro livros que me agradam um pouco menos

Em O papagaio de Flaubert, apesar de ser uma obra de ficção, encontramos vários elementos que agora reconheço como os do próprio Julian, em vários momentos é quase como se ele esquecesse que está dentro de um personagem e deixasse a sua voz interna tomar conta.

Mas são nesses momentos que a história brilha. O papagaio é só uma desculpa para Julian entrar nos detalhes da fascinação que temos pelos autores. Quando um autor entrega uma obra a nossa curiosidade deveria ficar ali, mas vivemos sempre em busca de mais de mais detalhes, curiosidade e afins. Sempre tentando desbravar aquela pessoa que escreveu.

Utilizando a vida muito conturbada de Gustavo Flaubert e o mesmo tempo a sua obra de primeira linha, ele vai esmiuçando os dois lados de Flaubert e de até onde vai a definição de arte, de autor, de leitor. Passamos boa parte do livro tentando desenhar a linha imaginária entre autor e obra.

Além disso, o personagem Braithwaite perdeu a mulher no livro e é interesse ler como Julian trata isso de uma forma quase superficial. Ler como essa visão mudou em 25 anos, quando ele mesmo se viu nesse situação é assustador e ao mesmo tempo fascinante.

Barnes está me ensinando a apreciar uma literatura diferente, mais crua e singular. Uma literatura que tem muito dele nela, e por isso, me deixa ainda mais curiosa para ler o resto.

Ficha técnica:

Livro: O Papagaio de Flaubert

Autor: Julian Barnes

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 220 páginas

Nota: 4/5

 

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