Projeto Dickens #7 – Oliver Twist

Por , 31 de janeiro de 2017 9:00

Depois de um longo intervalo, finalmente cheguei à próxima parada do meu longo Projeto Dickens. E a escolha da vez foi a segunda obra publicada pelo autor: Oliver Twist.

Confesso que iniciei a leitura sem muitas expectativas… Na verdade, pelo pouco que sabia sobre o livro, tinha a impressão de que esta seria a obra de Charles Dickens de que menos gostaria. Sendo assim, que delícia foi encontrar uma narrativa impressionante e comovente, capaz de conquistar o meu coração!

 

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Sombrio, misterioso e acidamente engraçado, Oliver Twist apresenta alguns dos vilões mais memoráveis de toda a ficção – Fagin, o traiçoeiro líder da gangue; Bill Sikes, o bandido ameaçador; e Artful Dodger e seu grupo de ladrões pelas ruas imundas de Londres.

A obra de Dickens é, ao mesmo tempo, uma crítica à pobreza e uma aventura repleta de ameaças e maldades ocultas.

 

“It is the custom in all good, murderous melodramas, to present the tragic and the comic scenes in as regular alternations as the layers of red and white in a side of streaky; well-cured bacon. The hero sinks upon his straw bed, weighed down by fetters and misfortunes; and, in the next scene, his faithful but unconscious squire regales the audience with a comic song”.

Imagine você, lá pelos idos de 1838. Você acabou de conhecer a escrita de um autor bastante promissor, que te levou a dar risada ao conferir as peripécias e trapalhadas de um simpático Sr. Pickwick e sua turma.

Esse mesmo autor começa então a publicar um novo romance em fascículos e você mais do que depressa corre para ler seu novo trabalho. Porém, ao invés do tom satírico e engraçado, você se depara com a história de um órfão repleto de tristezas e revezes. Um grande choque, não?!

Pois foi exatamente essa a situação enfrentada pelos leitores de Dickens ao conferirem as primeiras páginas de Oliver Twist, o que gerou uma verdadeira comoção na época. De acordo com o escritor George Gissing em seu livro The Immortal Dickens, após a publicação de Twist, “vozes foram elevadas em protesto e muitos dos admiradores de As aventuras do Sr. Pickwick viraram as costas para a obra em desgosto”.

Contudo, se alguns repudiaram o livro por ser muito diferente daquilo que esperavam, outros se surpreenderam com a pena afiada de Dickens que, através da narrativa das aventuras de um jovem, evidenciou a péssima qualidade das instituições sociais da época, como as creches e asilos.

E essa não foi a única crítica pesada que o autor inseriu em sua obra… O livro ficou especialmente conhecido ao apresentar ao leitor uma gangue de bandidos vis e traiçoeiros, que se utilizam da exploração de crianças para roubar e enganar pessoas de bem.

É bem verdade de Fagin, Sikes e o Artful Dodger são personagens que têm um certo fascínio, mas Dickens é bastante cuidadoso ao descrever suas ações – é só você começar a ter uma mínima simpatia por eles que logo estes fazem alguma coisa que te leva a repudiá-los novamente. E não é à toa!

Por incrível que pareça, a vida de vícios despertava bastante curiosidade na sociedade. Algumas pessoas viam um certo “glamour” no mundo do crime, mas o que o autor quis foi justamente desmistificar isso, mostrar o lado feio, o lado da miséria, da maldade, do assassinato – e as suas consequências.

Além disso, ao colocar lado a lado em uma única obra a crítica às instituições, a pobreza e a criminalidade, Dickens deixa clara a sua opinião de que uma coisa está diretamente ligada à outra. Ou seja: se a pessoa nasce em um ambiente miserável e as instituições que deveriam lhe dar todo o suporte necessário para construir uma vida digna são falhas, ela só pode cair no mundo do crime e da devassidão. Isso soa atual para você?

Mas, apesar de este ser um livro trágico em sua maior parte, seu humor e ironia se fazem presentes em algumas passagens sutis – e outras nem tanto. Confesso que ri alto quando Mr. Bumble reage às lágrimas de sua esposa com a seguinte máxima:

“’It opens the lungs, washes the countenance, exercises the eyes, and softens down the temper’, said Mr. Bumble; ‘so cry away’”.

Ou então, ao apresentar sua biblioteca abarrotada para Oliver, Mr. Brownlow afirma: “(…) there are books of which the back and covers are by far the best part”.

Um fato curioso que descobri ao ler o capítulo dedicado a Oliver Twist em The Immortal Dickens é que, seja principalmente por questões econômicas ou por excesso de criatividade, é sabido que Dickens começou a escrever este livro enquanto ainda escrevia o final de Pickwick. E, durante a sua escrita, começou ainda a redigir Barnaby Rudge. Um feito e tanto se você pensar em toda a disciplina e dedicação necessária para concluir uma obra dessa magnitude!

Por fim, vale dizer que esta foi a minha primeira experiência com o texto de Dickens em inglês. Confesso que sempre tive receio de encarar sua narrativa no original, por achar que não seria capaz de compreender todas as suas vertentes. Porém, não só consegui cumprir este desafio, como me alegrei ao perceber todas as suas camadas, suas frases engenhosas, suas pequenas ironias e delicadezas. Fiquei ainda mais apaixonada por sua escrita e ansiosa pelo próximo capítulo dessa jornada.

 

Ficha Técnica:

Livro: Oliver Twist

Autora: Charles Dickens

Editora: Penguin

Páginas: 540

Nota: 5/5 estrelas

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