E há 200 anos atrás, Jane Austen nos deixava

Por , 18 de julho de 2017 7:00

Em uma carta de 15 de junho de 1808, Jane Austen, escreveu para a sua irmã Cassandra:

“Por onde devo começar? Qual dos meus importantes nada eu devo te contar primeiro?”

IMG_2826

Jane tinha 32 dois anos, já havia escrito Lady Susan, Razão e Sensibilidade, Northanger Abbey e The Watsons e em 9 anos e poucos meses, a curta vida de Jane terminaria, colocando um fim nas suas histórias.

Por 41 anos, Austen viveu uma vida inconstante, com mudanças pela Inglaterra e tendo que viver de favor, com a irmã e a mãe, porque elas simplesmente não tinham dinheiro. Ela não casou, não teve filhos e nunca saiu da Inglaterra. Ainda assim, essa filha ~´insignificante~ de um clérigo, tinha um olhar para o mundo, para as relações humanas, que poucos consigam  expressar de uma forma tão única.

Apesar de ter mocinhas loucas por amor (Marianne estou olhando para você!), os livros de Jane focam não no sentimento em si, mas em como ele é construído ao redor da sociedade, em que os seus personagens estão inseridos.

Mesmo sendo carregado no romance, Orgulho e Preconceito não é um livro de amor entre Darcy e Lizzie, e sim em como eles vão experimentando e conhecendo os seus sentimentos, enquanto pensam a consequência de seus atos para o mundo. Ninguém vive em um mundo de fantasia nas histórias de Jane. Pelo menos, não na maioria do tempo.

Temos até um livro inteiro por conta disso! No caso, Persuasão, em que nosso casal principal tiveram que viver 10 anos com o resultado de uma decisão má feita e influências externas. E eles só conseguem superar essa barreira, porque foram 10 anos de arrependimento.

Vemos de fora essas histórias se desenrolarem, os erros sendo cometidos, os clichês acontecendo e os amantes aparecendo pelos lados. E ela ainda encontra tempo para lhe fazer apaixonar pelo mocinho e se senti na pele da mocinha.

Ler Emma pela primeira vez e não achar aquelas pessoas chatas, é não ler o livros da própria Emma.

IMG_2821

Ainda assim, mesmo já tendo escrito metade da sua obra em 1808, Jane não tinha nada importante para contar para a sua irmã e a pessoa mais próxima que ela teve durante a vida. Interessante pensar que mesmo alguém com uma mente como Jane era normal e tinha os seus dias de marasmo. Que alguém como ela não andava pelo mundo observando e se divertindo com as trapalhadas que, nos humanos, fazemos ao longo do dia.

Era alguém tão diferente que conseguiu escrever livros que seriam relidos, amados, encenados, estudados e admirados mesmo 200 anos depois da sua morte.

Não houve uma grande procissão, não houve fãs chorando desconsolados com a sua perda. Dizer que Jane sobreviveu através do seu trabalho é pouco, porque como diz a expressão ‘você não leva nada dessa vida’, e a Jane de verdade morreu nesse dia há 200 anos atrás depois de lutar contra a sua doença por mais de 3 meses.

Mas o seu trabalho está aqui, para provar que durante a sua curta existência, Jane pode até ter tido momentos em que não teria nada importante para contar, só que hoje podemos ficar falando sobre Austen por dias e ainda ter assunto novo. Ela era muito maior do que podia imaginar.

Só que Jane também era uma humana. Tinha vontades e sonhos próprios, recusou o casamento para se dedicar aos seus livros,  passou por situações humilhantes sem o pai para sustentar e só teve sossego quando foi ajudar o irmão a cuidar dos seus 8 filhos.

Era alguém que acordava de manhã cansada, de mau humor, que tinha preguiça de sair da cama quando estava nevando, que gostava do seu chá quente e do seu bolo fresco. Era alguém que não estava alheia a doenças e a criticas sobre o seu trabalho.

Suas palavras durarão para sempre, suas histórias sempre serão importantes, mas  em 18 de julho de 1817, aos 41 anos, Jane Austen partia desse mundo, e ali morria, uma das mais importantes escritoras de todos os tempos.

JA-new-crop-700x354

Deixe uma resposta