Entre páginas – O inferno dos outros

Por , 7 de agosto de 2017 9:00

Falei recentemente aqui no blog sobre o Man Booker Prize e como, aos poucos, esse prêmio tem despertado a minha curiosidade (e me desafiado a ler coisas diferentes).

Apesar de a longlist da premiação ter saído apenas recentemente, ela foi precedida pela edição internacional do Booker Prize, que engloba obras do mundo todo, escrita em línguas diferentes, publicadas no último ano na Inglaterra.

E foi justamente quando essa longlist internacional foi divulgada que conheci David Grossman e sua obra O inferno dos outros. O livro estava sendo bastante comentado em um grupo do Goodreads que acompanho (ManBookering – #ficadica!) e resolvi conferi-lo.

 

CAPA-O-INFERNO-DOS-OUTROS

Em cima de um palco decadente de uma pequena cidade israelense, Dovale apresenta um show de stand up para alguns gatos pingados e um amigo de infância, seu convidado especial da noite. Enquanto faz piadas mais ou menos sagazes, no limite do politicamente correto e do bom gosto, passeando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e os palavrões proferidos por um papagaio, o comediante provoca o riso da plateia, mas também o desconforto. A tensão aumenta conforme Dovale expõe seus dramas pessoais mais profundos, e o humor se esvai dando lugar a uma melancolia comum a todos nós. Um romance corajoso e atual, breve mas avassalador, de um dos maiores ficcionistas contemporâneos.

 

 

À primeira vista, O inferno dos outros é um livro… desconfortável.

Ele se inicia como uma espécie de monólogo de Dovale, um comediante de stand-up de meia-idade que, já com a carreira em decadência, faz um último esforço para provar a sua eficiência. Porém, suas piadas sem graça (que despertam sorrisos amarelos) divide a cena com comentários estranhos (por vezes autodepreciativos, por vezes preconceituosos), que vão gerando um mal estar generalizado na plateia.

Para “piorar” o desconforto, a obra possui um narrador em primeira pessoa que, assim como nós, assiste a tudo aquilo e tira suas próprias conclusões. Mas este não é um narrador qualquer… Conforme a narrativa se desenrola, vamos conhecendo este personagem e sua relação com Dovale, um antigo amigo de infância com quem não tem contato há anos.

Com esse cenário criado, passamos a assistir, como voyers, as tentativas quase que viscerais do protagonista em despertar algum sentimento que seja em seu público – sendo este empatia ou mesmo repulsa.

Esse estranhamento inicial apenas se intensifica conforme os relatos do apresentador vão se tornando cada vez mais pessoais. E foi justamente aí que o livro deu uma virada para mim.

Até a metade, essa foi uma leitura um tanto lenta. Como mencionei antes, a narrativa é um pouco crua demais e nos deixa bem desconfortáveis (propositalmente). Contudo, quando Dovale começa a desencavar seu passado e revelar algumas experiências muito pessoais de sua infância – em meio a piadas e autodepreciações -, fica difícil não se compadecer dele.

É comovente perceber como, sutilmente, ele modifica suas lembranças para que elas pareçam menos sofridas do que foram… E bastante interessante ver como sua narrativa contrasta com as lembranças do narrador, que presenciou aqueles acontecimentos.

No final, encerrei a leitura gostando muito mais desse livro do que pensei que gostaria e curiosa para conferir outros trabalhos do autor.

 

Ficha Técnica:

Livro: O inferno dos outros

Autora: David Grossman

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 200 páginas

Classificação: 3.5/5 estrelas

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