Entre Páginas – The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade #ManBookerPrize

Por , 10 de outubro de 2017 21:22
Por Fanny Ladeira e Sabrina Inserra

No ano passado, The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade foi um dos livros favoritos de muitas personalidades – de Barack Obama à Jojo Moyes -, e quando ganhou o Prêmio Pulitzer, entrou na lista do Man Booker Prize e logo em seguida foi lançado no Brasil, não podíamos mais ignorá-lo.

Mas, mesmo não passando para a short list de um dos prêmios mais prestigiosos da literatura, ainda é uma leitura importante.

 

Underground

 

Cora é uma jovem escrava em uma plantação de algodão na Georgia. A vida é infernal para todos os escravos, mas especialmente terrível para Cora. Uma pária até entre outros africanos, ela está chegando à maturidade, que a tornará vítima de dores ainda maiores. Quando um recém-chegado da Virgínia, Caesar, revela uma rota de fuga chamada, a ferrovia subterrânea, ambos decidem escapar de seus algozes. Mas nada sai como planejado. Cora e Caesar sabem que estão sendo caçados: a qualquer momento podem ser levados de volta a uma existência terrível sem liberdade.

 

Sabrina

Confesso que, com The Underground Railroad fui totalmente fisgada pelo hype em torno do livro. Digo isso porque a obra não se encaixa exatamente no rol de leituras que costumo fazer mas, depois de tanto ouvir falar no livro – e principalmente depois que este conquistou uma indicação para o Man Booker Prize – acabei cedendo e dei uma chance à obra de Colson Whitehead.

E que boa surpresa! Me deparei, logo nas primeiras páginas com uma narrativa fluida, gostosa e hipnótica… Mas não menos impressionante e difícil.

O autor nos insere logo de cara em uma fazenda escravagista, que servirá de cenário para o start da história de Mabel e Cora, mãe e filha, que são apenas mais uma geração de escravas dentre tantas outras localizadas no sul dos Estados Unidos. A partir de uma introdução um tanto frenética, passamos a acompanhar a jornada de Cora e sua tentativa de se libertar do regime.

Sua história irá se cruzar, em certa altura, com a ferrovia subterrânea do título e seus trilhos a guiarão por muito mais do que quilômetros – a apresentarão uma variedade de lugares e pessoas com as quais ela nunca nem sonhou.

Assim como a Fanny, fiquei extremamente surpresa ao constatar que essa ferrovia de fato existiu e me peguei por vezes pensando nas centenas de pessoas que depositaram suas esperanças nesse misterioso meio de fuga.

Apesar de ser um tanto arrastado em algumas partes e corrido em outras, o livro desperta no leitor um sentimento de repulsa pela escravidão e pelos meios bárbaros com que os senhores e capatazes exploravam seus empregados.

Pode parecer clichê, ou algo fora de moda, mas em tempos como este, em que tanto discutimos políticas de inclusão e lutamos por igualdade, The Underground Railroad se torna uma leitura obrigatória e chama novamente a nossa atenção para assuntos que não devem sair de pauta, nunca.

 

Fanny

Pouco livros conseguem carregar a sua importância histórica, humana, serem muito bem feitos e ainda por cima, possuírem uma velocidade única. Eu peguei para ler e não consegui mais largar.

Alguns livros são publicados no momento certo, e The Underground Railroad é um deles.

Quando eu comecei a ler sua história, tinha certeza de que a parte dos túneis subterrâneos eram ficcionais, e só depois de muito especular sozinha, fui pesquisar e descobri que era verdade! Essa parte me surpreendeu.

O resto: as torturas, a vida sacrificada, as tristezas, perdas e o completo desprezo pela vida humana, isso não me surpreendeu tanto, mas não quer dizer que me importei menos.

Quando disse que The Underground Railroad foi publicado no momento certo, é porque, por muitos anos, parecia que caminhávamos para um mundo mais tolerante, mais aberto. Tínhamos um longo caminho para percorrer, mas estávamos na direção. Só que de um ano para cá, sinto que entramos em algum portal, porque voltamos mais de 200 anos no tempo.

No meio do livro, lá na página 153, Cora chega na Carolina do Norte e presencia um evento em uma praça com tochas e pessoas gritando contra os negros, porque eles se achavam superiores. E esses dias mesmo, tivemos isso acontecendo DE VERDADE.

E apesar de ter a sua grande parcela de culpa, não adianta apontar só para o presidente dos Estados Unidos. As pessoas têm os seus preconceitos e os deixam aflorar quando acham que é aceitável. Porém, o preconceito sempre esteve ali.

Então, mais triste do que ler o que aconteceu no passado, é saber que há ainda muitas pessoas que pensam da mesma forma, e isso torna a leitura de The Underground Railroad ainda mais importante e verdadeira.

Isso sendo dito, apesar de todo o seu hype, o livro tem as suas falhas. A linguagem é muito atual, o que muitas vezes nos faz esquecer que estamos lendo um livro que se passa há mais de 150 anos e as páginas finais precisavam de um pouco mais de carinho para fechar uma história tão bem feita. Ainda não li os outros livros que foram para a short list do Man Brooker Prize, mas talvez tenham sido essas pequenas coisas que lhe faltaram para seguir adiante na competição.

Não será o meu livro favorito do ano, mas é uma leitura memorável e (infelizmente), necessária.

 

Ficha Técnica:

Livro: The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade

Autor: Colson Whitehead

Editora: Harper Collins

Páginas: 312

Nota Sabrina: 4/5

Nota Fanny: 4/5

Deixe uma resposta