Entre páginas – O dono do morro: Um homem e a batalha pelo Rio

Por , 13 de outubro de 2017 9:00

Há pouco tempo, em uma sexta-feira tumultuada no trabalho, ouvi falar pela primeira vez nos conflitos violentos que estavam acontecendo na Rocinha, uma das principais favelas do Rio de Janeiro e a maior da América Latina.

Admito que, antes desse episódio, o mais próximo que já chegara de conhecer a realidade do tráfico nos morros cariocas havia sido pelo noticiário comum – e pela leitura de Abusado, do jornalista Caco Barcellos.

Pois bem. Lá estava eu, naquela sexta-feira, fascinada e curiosa a respeito dos elementos que haviam deflagrado a guerra entre facções na Rocinha. E foi justamente pesquisando sobre o assunto que me deparei com uma entrevista com o jornalista americano Misha Gleeny acerca de seu livro, O dono do morro: Um homem e a batalha pelo Rio, publicado pela Companhia das Letras no ano passado.

Interessada pelo tema, corri no mesmo momento para a Amazon, onde me deparei com o e-book da obra com um descontão, e iniciei a leitura no mesmo dia.

 

O donoO dono do morro é a história impressionante de um homem comum forçado a tomar uma decisão que transformaria sua vida. Como Antonio Francisco Bonfim Lopes, um jovem pai trabalhador, se transformou em Nem, o líder do tráfico de drogas na Rocinha? A partir de uma série de entrevistas na prisão de segurança máxima onde o criminoso cumpre sentença, Misha Glenny narra a ascensão e a queda do traficante, assim como a tragédia de uma cidade.

Da inundação do Rio de Janeiro pela cocaína nos anos 1980 à situação atual que embaralha voto, armas, política, polícia e bandidagem, a apuração impecável de Misha Glenny revela cada peça de um complicado quebra-cabeças.

 

A obra traz, em um primeiro nível, a biografia de Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha. Atualmente preso em um predídio de segurança máxima na região norte do país, Nem foi o grande chefão da Rocinha por muitos anos – e um líder bastante popular na comunidade.

Através de um texto muito fluido e informativo, o autor inicia sua narrativa com um contexto de como acabou se interessando pela história atual do Brasil – história esta que, de acordo com o jornalista, é pouquíssimo difundida em seu país de origem – e como se deram suas longas entrevistas com Nem no presídio.

Porém, o que mais me interessou na obra como um todo foi mais do que isso: nos capítulos iniciais de O dono do morro, Gleeny traça um verdadeiro panorama do tráfico de drogas, e como este ganhou um enorme espaço no Brasil e, mais especificamente, no Rio de Janeiro.

Fiquei fascinada em descobrir mais sobre o caminho percorrido pelas “mulas”, a jornada da droga pelos rios da região central do país, sua efervescência nos morros cariocas e a sucessão de líderes temidos e, em alguns casos, carismáticos, que marcaram história na Rocinha.

É trágico observar como, aos poucos, o dinheiro do tráfico passou a circular por regiões onde as verbas do Estado não chegavam, e a força que seus líderes adquiriam em comunidades esquecidas pela Lei.

Por todos esses elementos, a obra de Gleeny é intrigante e inquietante e levanta ainda mais questionamentos do que respostas. Porém, apesar de tudo, não pude deixar de sentir que a narrativa do autor é um tanto quanto “chapa branca”, ou seja, tenta pintar a figura de Nem, o biografado, como um tipo de herói das minorias.

Claro, alguns elementos da história de Nem são bastante comoventes, e nos evidenciam a tridimensionalidade do personagem. Um dos pontos é a forma como ele entrou no mundo do crime: Nem subiu o morro para pedir um empréstimo para pagar o tratamento de sua filha pequena, que padecia de uma doença raríssima. Com isso, o escritor procura mostrar que ninguém é 100% bom ou mau, o que é bem compreensível, mas achei que ele forçou um pouquinho a barra em alguns momentos, na tentativa de suavizar as coisas. Contudo, isso não foi um aspecto que me fez gostar menos do livro, apenas me deixou um tanto ressabiada.

A verdade é que encontrei em O dono do morro um livro delicioso de ser lido, repleto de questionamentos relevantes e muito atuais. Indico a leitura para todos que se interessam pelo tema ou que querem entender um pouco mais sobre o panorama do nosso país!

 

Ficha Técnica:

Livro: O dono do morro: Um homem e a batalha pelo Rio

Autor: Misha Gleeny

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 360

Nota: 4/5

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