Entre páginas – O visconde partido ao meio

Por , 4 de janeiro de 2018 9:15

Já havia tempos que estava ensaiando retomar as minhas leituras da obra de Italo Calvino. Depois que conheci sua narrativa poética e sagaz em O cavaleiro inexistente, sabia que deveria seguir viagem com O visconde partido ao meio, mas simplesmente não conseguia inserir esse livro na pilha enorme que se acumulava na minha cabeceira.

Bom. Ano novo, vida nova, proposições novas e assim resolvi iniciar o ano de leituras com esta obra. E que início auspicioso!

 

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O visconde partido ao meio, publicado originalmente em 1952, veio a compor com O cavaleiro inexistente e O barão nas árvores uma trilogia a que Italo Calvino (1923-85) chamou de Os nossos antepassados, uma espécie de árvore genealógica do homem contemporâneo, alienado, dividido, incompleto. É a história de Medardo di Terralba, o voluntarioso visconde que, na defesa da cristandade contra os turcos, leva um tiro de canhão no peito, mas sobrevive, ficando absurdamente partido ao meio. A metade direita atormentada pela maldade, e a esquerda, pela bondade.

 

O visconde partido ao meio nos apresenta a história de Medrado di Terralba, um visconde que acaba de se alistar na guerra dos cristãos contra os turcos. Em sua primeira incursão na batalha, toma um tiro de canhão e acaba perdendo, literalmente, metade de si.

“Agora estava vivo e partido ao meio.”

Com uma pitada de realismo mágico e de uma ironia que só a pena afiada de Calvino é capaz de transpor para o papel, acompanhamos, junto com a população da pequena cidade de Terralba, o retorno de meio homem. Porém, o que restou de Medrado é sua parte má: o visconde trouxe consigo apenas suas características mais cruéis e passa a “tocar o terror” ao seu redor.

Porém, é justamente quando a parte boa de Medrado resolve dar as caras, que percebemos realmente a sua duplicidade. Enquanto um lado é apenas maldade, o outro é de uma bondade tão extrema que chega até mesmo a ser um pouco irritante – e se torna tão indesejável quando a outra.

“Assim passavam os dias em Terralba, e os nossos sentimentos se tornavam incolores e obtusos, pois nos sentíamos como perdidos entre maldades e virtudes igualmente desumanas.”

Mas, como se esse fenômeno já não fosse suficiente para que este fosse um livro interessante ao extremo, somos deparados também por outros contrastes e alegorias. O narrador, em si, já é foco de fascínio: se trata do jovem sobrinho de Medrado que, após perder os pais, tem sua educação delegada ao tio – ou melhor… aos seus súditos. Cada hora ele transporta o foco da narrativa para aquele a quem elege como mentor naquele momento: seja o médico excêntrico, a jovem Pamela ou a ama Sabastiana. Com um olhar que transita entre a inocência e a esperteza, o menino é também, a seu modo, um ser incompleto.

“Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem.”

Outros personagens curiosos são o Dr. Trelawney – cientista curioso por entender os mistérios do mundo, mas não gosta de cuidar dos humanos –, e o carpinteiro, que aplica suas técnicas refinadas para construir belos instrumentos de tortura (que vão contra sua natureza benigna), mas que é incapaz de construir máquinas para o bem.

Ao mesmo tempo, também temos os leprosos que, ironicamente, são aqueles que exercem sua arte com liberdade – seja criativa ou sexual. É como se não apenas a doença, mas também seus ideais fossem “contagiosas” e eles devessem ficar escondidos e intocáveis.

“ – Ah, ah, não deixe que lhe suba à cabeça, não exagere – responderam os velhos, como sempre os velhos costumam responder, quando não são os jovens que respondem assim.”

De acordo com o autor, a inspiração para este livro veio da ideia de que “(…) todos nos sentimos de algum modo incompletos, todos realizamos uma parte de nós mesmos e não outra.”

Ao nos apresentar um personagem radicalmente dividido, Calvino exacerba a nossa percepção que nada é realmente “preto no branco” – e nem deve ser. É o conjunto das nossas dicotomias que nos transformam no que somos e nos dá equilíbrio.

“Quanto ao modo para diferenciar as duas metades, pareceu-me que fazer uma ruim e a outra boa seria o criaria o máximo de contraste. Era toda uma construção narrativa fundamentada nos contrastes.”

Assim como aconteceu após a minha leitura de O cavaleiro inexistente, deixei essas páginas inspirada pela narrativa mágica e encantadora deste que já está se tornando um dos meus autores favoritos. Minha sugestão? Faça um favor a si mesmo e dê uma chance à obra de Italo Calvino. Você não irá se arrepender!

“Isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude.”

 

Ficha Técnica:

Título: O visconde partido ao meio (Il visconte dimezzato)

Autor: Italo Calvino

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 102 páginas

Avaliação: 5/5 estrelas

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